quinta-feira, 23 de maio de 2013

A "redoma de vidro" do capitalismo brasileiro

Respondi a um comentário articulado e bem informado ao texto Joelmir Beting e as raízes da desigualdade brasileira, e avaliei que essa discussão merecia ganhar destaque numa postagem própria. Vejamos o texto do comentário e, em seguida, a minha resposta.

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A minha opiniao para explicar a alta desiguldade de renda no Brasil eh pelo fato dos pobres do Brasil estarem de fora do capitalismo enquanto os ricos estao dentro. A ideia vem de Hernando de Soto no livro The Mystery of Capital. 

Capitalismo eh composto de livro comercio, estabilidade macro, burocracia e rule of law, e propriedade privada.

Rico tem acesso a comercio quando vai de aviao fazer compras no exterior. O pobre fica preso no protecionismo nacional.

Rico sofre menos impacto da inflacao alta (estabilidade macro) pois tem investimentos do que o pobre que sofre mais com inflacao nos gastos mensais.

Rico usa do jeitinho com amigos no alto escalao do governo e com despachantes para lidar com a burocacia e o rule of law. O pobre simplesmente parte para a ilegalidade e o alto risco de perder riqueza de tomar decisoes sem contrato coberto pelo rule of law.

Rico tem propriedade privada reconhecida pelo Estado que pode ser hipotecada como garantia de investimento (capital). Pobre mora em propriedade nao registrada portanto sem capacidade de gerar capital na sua vida pois nao pode hipotecar ou alugar com cobertura da justica.

Somado tudo isso temos uma sociedade em que existe capitalismo para os ricos e nada para os pobres que sao seduzidos pelo estatismo com a promessa de destruir o sistema que existe em permanente alta desiguldade.

Para o capitalismo englobar todos em uma sociedade ele exige poucas e boas leis sendo aplicadas no mundo real, burocracia e justica extremamente simples e de baixo custo, facilidade e liberdade em registrar e manipular a propriedade privada e excelente estabilidade macro.

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Também li esse livro do De Soto, e concordo com você. O capitalismo é bom para todos se as instituições que dão suporte ao funcionamento da economia de mercado oferecerem a todo mundo a capacidade de investir dinheiro para fazer mais dinheiro. Em países como o Brasil, o sistema institucional protege os ricos numa "redoma de vidro", para usar uma expressão desse autor, em que o capitalismo funciona plenamente, enquanto o restante da população, não podendo fazer dinheiro por sua própria conta, espera ajuda estatal. 

Melhor para os políticos malandros, que enriquecem montados num Estado hipertrofiado que opera dando com uma mão e tirando com a outra. Foi bem isso o que se viu na história da correção monetária: a indexação generalizada visava proteger todo mundo da inflação sem prejudicar a capacidade do Estado gastar por conta, sendo que a justificativa para tanto era que o Estado precisava investir pesadamente para superar gargalos da estrutura econômica e melhorar a qualidade de vida (detalhes no post Sobre "Os párias do quatrilhão"). Na prática, a correção funcionou como um reforço à "redoma de vidro", pois protegeu profissionais liberais e empresários da inflação ascendente, enquanto os salários eram corroídos. Nesse sentido, a superindexação da economia é uma boa pista para explicar a razão de o Brasil ter figurado em pesquisas como o World Outlook com uma desigualdade de renda maior ainda do que a de outros países que padecem do mesmo problema institucional, conforme as pesquisas do De Soto.

Mas não quero simplificar o debate. Há um porém no texto de Beting que eu não comentei para não me estender demais. Assim, aproveito o seu comentário para dizer que, de acordo com o sociólogo Sérgio Abranches, essa informação de que o Brasil tinha a maior desigualdade do mundo era questionável. Segundo ele, as informações estatísticas brasileiras eram muito mais confiáveis do que a de outros países com nível de desenvolvimento menor ou semelhante ao nosso, nos quais os sistemas estatísticos muitas vezes excluem informações referentes à minorias étnicas cujo padrão de vida é bem inferior ao da maioria da população.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Marilena Chaui acusa a classe média de ser o que o PT é

Quando eu entrei na universidade, já me dizia marxista - também, pudera!, tudo o que minhas professoras de história e de geografia do ensino médio me ensinaram foram teorias marxistas. Daí que, ao tomar contato com as ideias de Marilena Chaui, minha primeira impressão foi positiva. Quem começou a desfazê-la, já na graduação, foi Antonio Carlos Robert de Moraes, meu professor e orientador de iniciação científica e de mestrado. Embora ele também fosse marxista, alertava que as pessoas não se davam conta de que existem duas Marilenas Chaui: uma é a filósofa da USP que se dedicava a escrever calhamaços sobre Espinosa; a outra é a militante petista que participa do debate político nacional. A primeira é uma intelectual competente, mas a segunda se alinha com tudo o que o marxismo já produziu de mais simplificador e obscurantista.

O tempo só provou que ele tinha toda a razão. A cada dia que passa, mais essa senhora se revela uma caricatura perfeita do intelectual engajado, isto é, daquele tipo de intelectual para quem não existe neutralidade política no ensino e na pesquisa científica e que, por isso mesmo, não vê problema nenhum em apelar para todo tipo de mentira, preconceito e de manipulação de emoções para fazer triunfar as ideologias em que ele acredita. Isso ficou claro quando Chaui aceitou o estelionato eleitoral do PT sem dar um pio e escancarou-se quando ela saiu a gritar que o mensalão foi uma farsa montada pela imprensa golpista.

Mas, como se tudo isso já não fosse mais do que suficiente para vermos até onde pode descer um intelectual descompromissado com a objetividade do pensamento, ela ainda nos brindou com mais uma demonstração bizarra ao proferir uma palestra sobre o lançamento do livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma, organizado por Emir Sader (ver aqui). Após um preâmbulo sobre o conceito marxista de classe social, eis que ela vomitou o seguinte:

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre "Os párias do quatrilhão"

BARROS, et. al., 2006, p. 107

A série acima demonstra que, embora a concentração de renda seja muito alta, no Brasil, o maior pico da desigualdade se deu no ano de 1989, quando o índice de Gini atingiu 0,634. Não por acaso, esse foi o ano em que a via crúcis da crise inflacionária chegou ao ápice, com a inflação anual atingindo 1.783%. Por conta disso, Joelmir Beting (1996) concluiu que a explicação para o fato de o Brasil ter chegado a figurar como o país de mais alta desigualdade de renda no mundo, segundo estudos do Banco Mundial, ligava-se diretamente à persistência de altas taxas de inflação. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Mentiras petralhas nos comentários - 1

"Falar mentiras é diferente de ter uma opinião".
Reinaldo Azevedo, 26 de novembro de 2011.

Schopenhauer, ao elencar algumas estratégias que costumam ser usadas para vencer um debate por qualquer meio, lícito ou ilícito, avisava que os raciocínios errôneos eram fáceis de explicar e de entender, ao passo que as ideias corretas exigiam muito mais tempo e paciência para serem expostas e compreendidas. Daí a tendência das plateias se entusiasmarem com a ideia equivocada e cochilarem enquanto o debatedor a corrige

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Joelmir Beting e as raízes da desigualdade brasileira

Eu tinha pensado em escrever um ou dois posts sobre Joelmir Beting por ocasião de sua morte, mas acabei me ocupando de outros temas, e deixei passar. Agora, vou comentar um artigo em que esse ótimo jornalista econômico fez uma análise sobre as causas da desigualdade de renda no Brasil que, francamente, é até mais científica do que muita coisa que se costuma escrever na academia sobre o tema. 

O texto, publicado originalmente em 1996, começa citando a informação de que o índice de Gini da concentração de renda para o Brasil era de 0,60, conforme dados de 1993. A maior do mundo, conforme um estudo sobre 179 países apresentado no World Outlook, do Banco Mundial. No intuito de esclarecer as razões desse recorde, Beting começa por fazer uma revisão das principais teses usadas pelos acadêmicos para explicar o fenômeno da altíssima desigualdade brasileira, conforme segue:

terça-feira, 7 de maio de 2013

Capitalismo é ecológico quando os consumidores assim desejam, como prova o agronegócio

Um erro fundamental do marxismo e de outras vertentes da teoria social crítica é a tese de que, como a origem do lucro estaria na exploração do trabalho, as decisões dos empresários seriam determinadas pela esfera da produção, de modo que pouco ou nada teriam a ver com as "reais necessidades" da sociedade. Além de ser autoritário e pretensioso julgar-se em posição de saber quais são as "reais necessidades" dos outros, os teóricos e militantes de esquerda erram ao supor que as decisões sobre o quê e como produzir sejam descoladas dos desejos e expectativas dos consumidores. Numa economia competitiva e de mercado, como é a capitalista, ganha mais dinheiro quem for capaz de atender melhor a essas expectativas e desejos, de sorte que são os consumidores que, em última análise, definem quais produtos devem ser produzidos e como deve ocorrer a produção.

É aí que entra a questão ambiental. Repete-se incessantemente que o capitalismo é anti-ecológico porque o interesse em lucrar leva os empresários a utilizar os recursos naturais de forma predatória, sem preocupação com o futuro. Todavia, há muitos exemplos a demonstrar que, quando o mercado exige produtos ambientalmente sustentáveis (seja lá o que isso signifique), o empresariado simplesmente se adapta à demanda. Faz algum tempo, saiu uma matéria interessante na Revista Época que ilustra isso muito bem. Não tenho o link para a versão on line da matéria, mas reproduzo parte dela abaixo:

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Gilberto Freyre, Tomasi di Lampedusa e o poder de contar a história

O sociólogo Gilberto Freyre dedicou seu trabalho de pesquisa mais importante, o livro Casa-Grande & senzala, aos seus quatro avós. O romance O leopardo, de Giuseppe Tomasi, príncipe de Lampedusa, narra a história do Príncipe de Salina, que era avô do autor. Ao comentar esse romance, o historiador Boris Fausto faz uma comparação muito interessante entre os dois autores, ao salientar que ambos pertenceram a famílias que haviam perdido o poder político, mas que conservavam o poder de contar a história.