quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Um Bill Gates é melhor do que um Milton Santos

"Todo poder humano é uma mistura de paciência e de tempo. As criaturas poderosas querem – e velam [...]. Daí vem, talvez, a prodigiosa curiosidade que despertam os avarentos habilmente postos em cena. Cada indivíduo está ligado por um fio àquelas personagens que ofendem a todos os sentimentos humanos, resumindo-os todos. Onde está o homem sem desejo, e que desejo social se resolverá sem dinheiro?".
Honoré de Balzac, Eugene Grandet.

Milton Santos era daqueles intelectuais esquerdistas que manifestavam desprezo pelo consumismo, pela burguesia, pelas pessoas que batalham visando só pagar as contas ou acumular dinheiro, além de basear seus trabalhos acadêmicos no pressuposto de que competitividade e solidariedade são opostos. Durante uma aula que tive com ele na pós-graduação, a turma foi brindada com o seguinte comentário do professor: "o intelectual não precisa de dinheiro" (breve pausa expressiva) "porque o intelectual tem prestígio!". 

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Shopping centers são alternativa para a má qualidade dos espaços urbanos no Brasil

O psicanalista Contardo Calligaris escreveu um texto sobre os "rolezinhos" que, embora baseado em opiniões pessoais dele e de pessoas que ele conhece, acaba revelando muito sobre a importância que os shopping centers assumiram no Brasil como espaços de lazer e de socialização. Ele afirma que, na Europa e EUA, os shoppings não são tão importantes como lugares de compras quanto são aqui e nem são vistos pelas pessoas como lugares para dar um rolê. Nesses países, as pessoas fazem compras em lojas e dão rolê nas ruas ou praças, em espaços abertos. Especificamente sobre os EUA, ele diz:
Em Manhattan também há lojas de departamentos (Saks, Lord and Taylor, Bergdorf, Barneys, Bloomingdale's, Macy's etc.), mas não são lugares para rolê - eventualmente, para expedições quase militares em dia de liquidações anuais. O único shopping center de Manhattan é o Manhattan Mall, do qual, aliás, os nova-iorquinos tendem a fugir.
Nas áreas suburbanas e rurais dos EUA, os shopping centers se parecem com os do Brasil. Mesmo assim, foi no Brasil que eu aprendi que dar rolês em shopping é um programa (ver aqui).

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Black Bloc prova o fracasso da escola brasileira

Escola Sem Partido
No livro Por uma crítica da geografia crítica (Editora da UEPG, 2013), eu apresento os resultados de uma pesquisa realizada com alunos do último ano do ensino médio, os quais responderam a um questionário com perguntas sobre geografia geral. A qualidade das redações dos alunos era baixíssima, pois revelava uma série de erros de ortografia e gramática, desconhecimento do significado de palavras bastante comuns (como "dependente" e "independente"), além de uma gigantesca dificuldade para expor ideias com clareza. Por outro lado, era nítido que as respostas dos alunos eram informadas pelas teorias e ideologias de esquerda veiculadas pelos livros didáticos, como os de José W. Vesentini. Daí a conclusão: a escola brasileira vem sendo capaz de formar consensos ideológicos de esquerda entre os alunos, mas fracassa completamente na sua principal função, que é a de desenvolver competências.

Só para exemplificar, aqui estão duas respostas que procuravam justificar a ideia de que os países subdesenvolvidos são explorados:

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Comentários exemplares. Ou: Um petralha deu as caras por aqui

A quantidade de comentários que mandam para cá aumentou um bocado nos últimos tempos. Mas a qualidade de certos comentários é tão baixa que, sem querer, seus autores acabam confirmando as tomatadas virtuais que eu disparo aqui no blog. Vou destacar neste post apenas um comentário particularmente ilustrativo.
Veja só o que a Vale faz com a vida das pessoas (http://www.xxxxxxxxxxxxxxxx.com.br). Isso o PSDB, a Veja e o cartel da mídia golpista não falam, muito menos você nas suas aulas doutrinárias.
Conforme eu escrevi no post Não contem com este blog para fazer propaganda de tipo nazista, os internautas se aproveitam da informalidade dos blogs para martelar interpretações equivocadas usando meia dúzia de frases feitas, visto que dar resposta é muito mais demorado que comentar e, assim, os autores de blogs dificilmente têm tempo para responder a todos os comentários que recebem – especialmente quando se trata de um blog com mais de meio milhão de acessos, como é o caso de Diplomatizzando. Em respeito ao espírito do debate de ideias, os autores publicam esse tipo de comentário, mas acabam não tendo tempo de expor sua discordância.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Visão de natureza de Fritjof Capra não justifica propostas de sustentabilidade ambiental

Uma das muitas explicações banais que são repetidas o tempo todo por geógrafos e cientistas sociais é a de que a chamada "crise ambiental" tem origem numa visão dicotômica da relação sociedade/natureza, visão essa cujas origens estariam ligadas à moral judaico-cristã e à racionalidade cartesiana. Essa visão estabeleceria que a natureza é apenas um recurso a ser utilizado pelo homem, o qual, no esforço de "dominá-la", geraria desperdício de recursos naturais e uma série de impactos ambientais insustentáveis no médio e longo prazos. A alternativa, portanto, começaria por adotar uma perspectiva holística da relação sociedade/natureza, que seria própria das "filosofias orientais" e de certas descobertas da ciência moderna, como as da física quântica, que supostamente confirmariam essa perspectiva. A partir daí, seria possível constituir sistemas econômicos e técnico-científicos sustentáveis, já que baseados na concepção de que a natureza é, ao invés de um recurso para o homem, um sistema complexo  do qual o homem faz parte.